Jornal A Cidade
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Santa Maria, Quinta-Feira, 18 de Julho de 2019 - Ano XX - Edição 1283 - R$ 2,00
EDIÇÃO 1283 ANIVERSÁRIOS 18 de Julho de 2019
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O Mito do amor parental e alienação

Aniversários: bertilo mito amor
[ Foto sobre Bertilo 1283 O Mito do amor parental e alienação (1) ]
Arquivo: Material publicado na Edição 1283 do Jornal A Cidade.

Numa sociedade em que as relações interpessoais parecem ser descartáveis, surge o mito do amor parental (de acordo com o qual o amor materno ou paterno é próprio do indivíduo, instintiva e incondicionalmente), a família é, ou deveria ser, a base sólida na qual se desenvolve o indivíduo. O problema está no fato de a volatilidade que se tem atribuído ao amor e ao amar ter transformado os laços a tal ponto que se eles não forem virtuais ou incontestáveis, não servem. Eis porque muitos tem preferido demonstrar mais carinho aos animais do que a outros seres humanos. Mas é importante questionarmos: somos capazes de amar nossos iguais de forma gratuita, tão cheios de qualidades e defeitos quanto nós? Com essa preliminar provocativa, proponho pensarmos no status das nossas relações familiares. Precocemente a sociedade se revolta, se deprime, se acomoda, se anestesia, se ensimesma e culpa o resto do mundo por tudo e qualquer coisa. O protagonismo deu lugar ao drama psicológico, por vezes travestido de patológico. Nos embebedamos de informações externas que ocupam espaço, mas não preenchem. Criamos mundos que cabem no universo de qualquer justificativa. As famílias estão criando e difundindo essa realidade, com casamentos instantâneos, filhos “peça de troca”, crianças e adolescentes assustadoramente espertos e desesperadoramente portadores de qualquer distúrbio que caiba dentro dos códigos médicos, e por fim, adultos fluídos. Em um universo em que as relações interpessoais parecem facilmente se sublinhar, quase como que em um processo químico, passando do sólido para o gasoso, a alienação parental aparece para tornar tóxica, ainda que supostamente imperceptível, vapor produzido. Infelizmente, não é raro famílias se constituírem a três. Algumas vezes o terceiro representa uma traição e isso é duramente imoral. Mas algumas vezes o terceiro é um fruto, um filho, que nasceu mais do medo de perder um status familiar do que do amor. Os consultórios de psicologia e a sala de audiência das varas de família e infância estão cheios, e até mesmo a crescente busca pelas chamadas constelações familiares estão aí para não me deixarem mentir. Transferir para um filho a responsabilidade para salvar uma união que idealizamos é mais que imoral, é cruel. A alienação parental advém, não poucas vezes, dessa circunstância. É cruel transferir ao ser inocente a responsabilidade de salvar aquilo que nossa capacidade de perdoar e/ou de tolerar, de reconhecer, de se impor, de não se subjugar, de se amar, e assim ser capaz de amar o outro. Fazer essa transferência a uma criança faz com que sejamos capazes de usar esse fruto como produto de barganha, acreditando ser ela justa, mas negligenciando quem está no fogo cruzado. Para uma esposa, perder a presença doce de seu marido é triste. Para um marido, perder a presença doce de sua esposa é deprimente. Mas para um filho, perder a presença essencial de seu pai ou de sua mãe por manipulação (motivada por uma falência do casal) é maldade. Esposas e maridos podem ser ex e voltarem a construir novos relacionamentos. Mas pais e mães tem o direito e dever de o serem para sempre, com responsabilidade. O mito do amor parental permite a paternidade/maternidade ser um dom, não um instinto e tampouco uma condição de sobrevivência social. A paternidade/maternidade é (ou deveria ser) a consubstanciação do amor. Deus que é Deus quis a materialização de um filho para provar seu amor a toda a humanidade, em parceria com uma pura criatura (que o gestou). Como podemos nós, sua imagem e semelhança, gerar o que deveria ser a consubstanciação do amor e depois usá-la como moeda de troca ou ferramenta de prisão? Não parece justo. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey

Publicado originalmente na Edição 1283 · 18 de Julho de 2019
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