Jornal A Cidade
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Santa Maria, Quinta-Feira, 7 de Fevereiro de 2019 - Ano XX - Edição 1260 - R$ 2,00
EDIÇÃO 1260 CIDADE 7 de Fevereiro de 2019
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Fazer por fazer, melhor não!

Cidade: bertilo fazer melhor
[ Foto sobre bertilo 7 de fev ]
Arquivo: Material publicado na Edição 1260 do Jornal A Cidade.

Os ingênuos podem supor que a alegria que sentimos ao fazer o que fazemos depende da importância que os outros dão ao que é feito. Felizmente não é assim, porque senão aos que fazem as tarefas chamadas menores só restaria a frustrante sensação da insignificância. E, com ela, o sentimento de inferioridade. Como o percentual de façanhas extraordinárias é muitíssimo pequeno, parece lógico concluir que a fonte geradora de alegria pessoal depende mesmo é da qualidade do que fazemos, seja lá o que façamos. Quando se trabalha em equipe, um conceito básico é que as tarefas de execução mais simples, aquelas que dispensam grande qualificação técnica e para as quais se consegue habilitação mais rápida, essas nunca poderão ser rotuladas como secundárias, sob pena de ruir todo o sistema. O exemplo que considero perfeito desta situação é o da faxineira do bloco cirúrgico. Quem definiria sua atividade como secundária se uma infecção decorrente de má assepsia pode empurrar todo o brilhantismo técnico da cirurgia para o ralo da complicação, as vezes irreparável? Aprendi em funções de chefia que a construção de um grupo diferenciado começa com a valorização da parcela de cada um, não apenas porque o reconhecimento profissional é um ingrediente indispensável na construção da autoestima individual, mas principalmente porque dele depende a espontaneidade do comprometimento. Os simplificadores atribuem aos baixos salários todos os problemas do desempenho medíocre, mas é um equívoco ignorar que não há estímulo econômico que coloque encanto no que se faça sem prazer. O mau humor de alguns profissionais bem remunerados é a tocante entrega afetiva de operários que mal ganham para sobrevivência é a prova de que nos alimentamos também de uma energia maior que nos impulsiona e gratifica. E que, sem ela, nos transformamos em meros colecionadores de ressentimentos. Era um enterro de uma pessoa querida e fiquei impressionado com o entusiasmo com que o coveiro rebocava os tijolos para o fechamento do sepulcro. Havia uma irretocável precisão de gestos quando cortava os fragmentos dos tijolos para que coubessem no espaço entre as pessoas maiores e por fim quando da colocação da pasta de cimento que preenchia todos os vãos, com notável destreza. Cheguei mais perto para ler o nome no crachá e percebi que o Antônio adorava o que fazia – e só não assobiava de contentamento em respeito à família que voltara a soluçar na medida em que a colocação da lápide representava a materialização do adeus. Quando começou a debandada, senti a necessidade de agradecer ao Antônio. Naquele “De nada” meio sussurrado havia uma dose de surpresa e incompreensão, mas, apesar da vontade de abraçá-lo, não senti ânimo para explicar que vê-lo trabalhar com tanto gosto tinha sido a única coisa memorável de um dia muito triste. A propósito disso, lembrei-me de uma passagem extraordinária que descreve um diálogo que presumivelmente ocorreu entre Madre Teresa, que cuidava de leprosos e um empresário texano. O milionário, vendo-a banhar carinhosamente um daqueles pobres pacientes, disse: “Irmã, eu não faria esse trabalho nem por um milhão de dólares”. E ela respondeu: “Eu também não meu filho”. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey.

Publicado originalmente na Edição 1260 · 7 de Fevereiro de 2019
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