Sinais de alerta
Neste tempo de tantas convulsões sociais, você consegue discernir o que está acontecendo com muitas pessoas? Já dizia o ditado que uma andorinha só não faz verão. Concordo, mas quando uma andorinha é seguida por uma multidão de iguais, certamente o verão está chegando. Quando observamos a sociedade nas ultimas décadas, podemos perceber de que há indícios de que algo não está bem na vida das pessoas. Quem geralmente dá os sinais de alerta, em primeiro lugar, é a arte, que representa as antenas mais sensíveis da humanidade. Desde meados do século XIX, com o surgimento de novas tecnologias(cinema, fotografias, rádio etc), a humanidade está numa roda viva que parece não ter fim. Mudou o papel da mulher na sociedade, mudou a família, aumentou a competitividade profissional e o tempo parece estar cada vez mais escasso. Uma famosa pintura do norueguês Edvard Munch, intitulada O Grito (1893), reflete bem o momento de profunda angustia e desespero existencial pelo qual o ser humano estava passando. Não faz parte do escopo deste artigo discutir se as mudanças foram boas ou ruins, necessárias ou não, e sim constatar que elas começaram a acontecer em uma velocidade cada vez maior e não pararam até os dias atuais. A música é considerada a mais popular das expressões artísticas. Nela podemos constatar com maior clareza os sinais de insatisfação humana. Nos anos sessenta os Rollings Stones fizeram um sucesso estrondoso com a música Satisfaction, que diz, mais ou menos, assim: Eu não consigo me satisfazer, eu não consigo. Eu tento, eu tento e eu tento, e eu não consigo, não consigo. Os jovens cansados de tantas guerras, queriam mudar o mundo, mas não sabiam bem como, e achavam que paz e amor resolveriam. Onde encontrar respostas? Bob Dylan, outro superstar da música internacional, dizia: a resposta está flutuando no vento. Não sei se ouve um artista mais famoso e polêmico nas décadas de 1960e 1970 do que John Lennon. Em uma das suas composições ele parecia suplicar: estou cansado de ouvir coisas vindas de arrumadinhos, míopes, hipócritas de mente estreita. Tudo que quero é a verdade. Me dê só um ´pouco de verdade. Estou farto de ler coisas vindas de neuróticos, psicóticos, políticos. Tudo que quero é a verdade. Me dê só um pouco da verdade. No Brasil lembrei-me de uma canção que dizia: Ideologia, eu quero uma para viver. Podemos resumir a intenção destas expressões artísticas dizendo que o ser humano não pode viver sem ter uma razão para viver. Sem ela, as pessoas se sentem vazias, angustiadas, depressivas, mesmo que não lhes falte nada em termos materiais. Prosperidade financeira nunca assegurou felicidade duradoura. O pior é constatar que o vazio existencial, além de gerar grande insatisfação, leva as pessoas a se tornarem vorazes. Vazias e vorazes. Nada parece contentá-las e vivem atrás de acumular bens materiais, vivem atrás de aventuras e novidades para atenuar a aridez que lhes habita a alma. Durante muito tempo a família foi a grande fortaleza que abrigava os mais valiosos tesouros humanos, tais como o amor, solidariedade, valores. Nos dias de hoje, com obrigações profissionais, mesmo a família parece não ter tempo para essas indispensáveis aulas de humanismo. Afora isso, há uma onda de relativismo na sociedade. Tudo parece válido, nada mais causa espanto. Como escapar desse redemoinho de influências negativas? Nada mais atual do que esse pensamento de Ambrósio: é a verdade que encontra o homem, mas será que temos dado tempo e espaço para que Deus, a suprema verdade, habite em nosso coração? Se a resposta for negativa, não estranhe o motivo porque tanta gente continua tendo uma vida vazia e voraz, tendo que tomar remédio para dormir, para se acalmar, para se alegrar, para enfim, tentar resgatar a humanidade que se perdeu no mais íntimo do seu ser. Pe Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey