Viver com leveza
“Passado não volta, futuro não temos e o hoje não acabou. Por isso ame mais, abrace mais. Pois não sabemos quanto tempo temos para respirar”(Thiago Brado). Quando criança, acreditava que tudo era eterno e, por mais que, vez ou outra, ouvisse a notícia de que uma comadre ou outra tivesse morrido, eu acreditava que os meus, a irmã morte nunca iria visitar. Acreditava também que a infância era eterna, que tudo era belo, que a vida era doce e generosa com todos. Com o tempo fui crescendo e me dando conta de que as coisas não eram bem assim. A morte bateu em minha porta e levou meu pai. As responsabilidades da vida de jovem começaram a aparecer e, com elas, as inquietações e necessidades: trabalhar, estudar, escolher uma profissão. Fui, então, notando que a vida passa e que todas aquelas coisas que pareciam eternas eram, na verdade, muito passageiras. Percebi a grande jogada da existência: a eternidade não esta nas coisas, mas no modo como as vivemos. É justamente no fato de a existência ser tão breve e os momentos tão efêmeros que a vida se torna tão preciosa. De um dia para outro, a nossa vida pode ser levada como a flor do campo que pela manhã, floresce e, ao fim da tarde, perece. Acaso não foi isso que Jesus falou em sua parábola sobre o homem avarento que só pensa em guardar os lucros de sua colheita, acreditando que sua vida aqui na terra seria eterna? Não nos alertou Ele sobre o modo como gastamos a nossa vida? É esse um dos ensinamentos do Mestre: que vivamos a nossa vida com a reverência que ela exige, gastando cada minuto para fazer o bem, empenhando nossos esforços para promover um mundo melhor. Há pessoas que com sabedoria acolhem esses ensinamentos e direcionam suas vidas no caminho do amor. São presença e cuidado na vida daqueles que os circundam. Como escreveu Cora Coralina: “Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser; colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove”. É essa presença de amor que dá sentido à vida, fazendo de sua brevidade um pedacinho da tão sonhada eternidade. Viver a vida de tal modo que as nossas ações toquem o coração daqueles que partilham conosco o nosso caminho: eis o desafio. Essa escolha é nada fácil! Mas, ao caminhar assim, transformamos em mais leves os fardos pesados do dia a dia, os nossos próprios e os daqueles que passam por nós. Assim, ao fim do dia da nossa existência, poderemos fechar os olhos num abraço fraterno à irmã morte, com o coração repleto da alegria do bem viver e de gratidão ao Deus da vida. Parafraseando o profeta Isaias, podemos dizer: “Seca-se a vida e extingue o respiro, mas as relações de amor permanecem para sempre”. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey