O que estamos fazendo de nosso TEMPO e de nossa HISTÓRIA
Tempo atrás ouvi uma definição muito interessante acerca da diferença entre preguiça e cansaço. “Preguiça acontece antes de trabalhar; cansaço, depois de trabalhar”. Achei uma resposta engraçada e genérica, mas se formos pensar bem, não deixa de ter suas razões e acertos. Porém, se seguirmos mais adiante, encontraremos outro conceito que surge nos tempos atuais, a saber, o ócio. Tirando estas duas sensações (preguiça e cansaço) e se nos detivermos a nos perguntar o que fazemos com o nosso tempo livre, certamente teremos diversas respostas. Cada um sabe o tempo que tem, mas sabemos o que de fato fazemos com o mesmo? Que possamos refletir um pouco sobre este tempo ocioso que temos, este tempo que ninguém, ou nenhuma situação externa, nos exige fazermos algo. No final dos anos 90, o sociólogo italiano Domenico de Masi, observando o trabalho na sociedade pós-industrial, desenvolveu a ideia de que a humanidade teria a necessidade de responder a si mesma o que fazer com seu tempo livre. Escreve o livro “O Ócio criativo”, onde demonstra que a criatividade aumenta o potencial imaginário e faz crescer a satisfação pessoal. Em dado momento, em seu livro, afirma que “existe um ócio alienante, que nos faz sentir vazios e inúteis. Mas existe também um outro ócio, que nos faz sentir livres e que é necessário a produção de ideias, assim como as ideias são necessária ao desenvolvimento da sociedade”. Ao contrário do que poderíamos achar em afirmar que o ócio seria uma espécie de preguiça, ele se distância pelo fato de que o ócio exige criatividade e gera produtividade e significado no tempo, bem diferente da preguiça, que é insignificante por si só. Por isso, o ócio criativo é a capacidade do ser humano de viver a integralidade da vida e do tempo. Fazer de seu trabalho, estudo e diversão a construção de sua identidade, de assumir o papel de protagonista de sua história. O conceito de ócio criativo é uma resposta que alarga e faz contraponto ao modelo que idolatra o trabalho como competitividade e geração de poder, propriedade e dinheiro. Domenico escreve com ironia e sarcasmo, questionando esta forma de agir, afirmando que “aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o tempo livre, e distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo”. Desta forma, podemos compreender que o ócio criativo vai além da compreensão de “usar bem o tempo livre”. É uma resposta a própria forma de viver. Conseguir fazer o equilíbrio das diversas facetas existentes em nosso dia a dia, eis o desafio que nos é apresentado. Desta forma, o ócio criativo não é usar o tempo conforme achamos conveniente, podendo nos levar a hábitos nocivos. É investir o tempo em atividades ( até mesmo o descanso pensado como atividade) que edificam o corpo e a mente, não em frivolidades. Será para cada um de nós um desafio, experimentar o ócio criativo como modelo para equalizar o tempo e a forma de viver. É a capacidade sempre nova de se reinventar. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey.