Uma obra-prima de pequenas conquistas cotidianas
Hoje foi um dia intenso. Mesmo aquilo que se pode prever traz consigo surpresas inesperadas. Logo cedo fiz, como de hábito, o propósito de respirar “nas asas do vento e do tempo”: buscar entender melhor o que está escondido por trás do que vemos ou fazemos. Contemplação dos tempos modernos? A sabedoria secular diz que, se não aprendemos a ser fiéis nas pequenas coisas, não seremos nas extraordinárias. Dizendo de outra forma, se não solenizamos o trivial, não temos acesso ao extraordinário. O realismo de viver bem cada momento afugenta horóscopos e adivinhos, superstições e construções vazias da fantasia viciada na busca pelo mágico e pelo fácil. Muitas vezes, o melhor está escondido nas pequenas coisas, em olhares límpidos ou no estar juntos sem grandes complicações e etiquetas, enfim, na saudável simplicidade do saber desfrutar a beleza da vida, com normalidade e bom humor. O devaneio de se ausentar do aqui e agora pode nos trazer escorregadelas perigosas. Aprisionado pelo passado que já se foi ou viajando em um futuro que ainda não chegou, deixamos escapar a preciosidade de cada momento vivido da melhor maneira possível. Pode nos atrair a busca por adrenalina fugaz e perigosa ou viagens irreais, ainda que coloridas. Tentam-nos surpresas com riscos irracionais. E a parafernália virtual nos anestesia e aliena, enquanto sensações artificiais preenchem de vazio as horas que não passam, arrastadas e tediosas. Tornamo-nos reféns de necessidades artificiais, absolutamente supérfluas. Com intensidade e leveza, podemos construir, em cada instante, uma obra prima de dom, criatividade, palavra ou silencio que obtém o incrível e paradoxal resultado de “parar o tempo”, como um recital épico de beleza, se assim se pode dizer. Vivendo assim nem nos damos conta de que o tempo esconde uma grande vontade de eternidade. Certa vez, um amigo veio de longe até a minha cidade para resolver um problema e comentou que não poderia perder a viagem. Aquilo me chamou a atenção, pois eu conhecia suas boas intenções. Disse-lhe que ele não perderia a viagem se prestasse atenção respeitosamente nas pessoas que encontrasse. Ao final de sua permanência conosco, fez questão de me agradecer: “Valeu a pena fazer esta experiência. Não perdi a viagem”. Concretamente, quando estabelecemos um objetivo fixo, quando estamos com as pessoas corremos o risco de perder a espontaneidade, e sobretudo, op gosto da gratuidade. É preciso saber perder tempo, sem pressa ou obsessão por resultados. Jamais devemos tentar controlar o que pode acontecer por força da atmosfera que se cria, mesmo pensando no bem das pessoas e nos problemas que devem ser resolvidos. A primeira conquista a ser feita é deixar-se assimilar-se pelo amor a tal ponto que os confundimos com ele. Então, tudo o mais acontece suavemente, como fruto da primeira instância da vida, o ser, que antecede o fazer, os deveres, as filantropias, as formas mais ou menos veladas de assistencialismo e eficiência. Este “ser mais” dá um sentido à tudo. Tornamo-nos pessoas mais integradas e felizes. É uma questão de fazer a experiência, iniciando justamente pelas pequenas coisas. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey