Espiritualidade e Descanso
Todo mundo anda dizendo que está cansado, sem disposição para superar a rotina e inovar a vida. O filósofo coreano Byung-Chul Han, em seu livro Sociedade do Cansaço, faz interessante reflexão sobre esse abatimento coletivo que parece estar se espalhando por aí. Uma das razões desse cansaço é estamos expostos a uma espécie de “supercomunicação”, em função da telefonia móvel, da internet e das redes sociais. A todo momento recebemos mensagens e obrigamo-nos a acompanhar essas solicitações e a reagir a elas, o que vai lentamente drenando nossa energia mental e emocional. Também coopera para esse desgaste a exigência de um “superdesempenho” em nossas atividades forçando-nos não apenas a fazê-las bem, mas também a ser os melhores, para não sermos descartados ou substituídos. Assim nosso corpo vai se tornando uma vasilha que nunca chega à última gota. Tal “superdesempenho” é cobrado em função de uma expectativa de um “superconsumo”, que demanda de nós a aquisição de uma série de produtos que são nosso passaporte de inclusão no mundo da “supercomunicação”, fechando aí esse circulo vicioso. Essa violência aos nossos neurônios se completa à medida que nossa intimidade vem sendo invadida e programada a partir de fora: sem tempo para checarmos a veracidade do que lemos ou mesmo para refletirmos sobre tanta informação, temos nossos gostos, nossas opiniões, nossas escolhas, nossa identidade moldados por uma avalanche de dados. Ter o nosso “eu” esvaziado de uma própria, profunda e rica missão de vida também é fonte de cansaço e desorientação. A tecnologia, que deveria ser nossa aliada na consecução de maior bem-estar parece começar a nos trair. Quando nos tornamos reféns de algo, nossa liberdade e nossa dignidade humana encontram-se ameaçadas. É preciso parar e respirar. O descanso é divino. “ Deus repousou, no sétimo dia, do trabalho por ele realizado”(Gn2,2). Esse misterioso descanso de Deus o que se refere ao livro do Gênesis é pleno de significado. Não significa que o Criador ficou inativo, e sim que se deteve para contemplar amorosamente a obra realizada: “Deus contemplou toda a sua obra e viu que tudo era muito bom”(Gn1,31). Ou seja, todo trabalho, toda atividade devem ter como meta a contemplação e o amor. Esse é o shabbat, o repouso de Deus: estar com suas criaturas, passear com elas no jardim da criação, entreter-se com elas numa relação de amor e cuidado. O descanso de Deus é estar conosco e nos amar. Este também constitui o nosso repouso verdadeiro: estar com o senhor na oração, principalmente quando nos reunimos em comunidade para a sagrada liturgia. A sabedoria da palavra de Deus nos apresenta o descanso como um mandamento: “Trabalharás durante seis dias e farás toda a tua obra. Mas no sétimo dia, que é um repouso em honra do Senhor, teu Deus não farás trabalho algum”(Ex20,9). Disso se desprende que descansar não é isolar-se e ficar sem fazer nada, mas variar as atividades para que tenhamos mais tempo de qualidade, de amor e de contemplação com Deus, com a natureza, com nossos familiares e irmãos de fé. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey