Artigo Padre Bertilo

Pe. Bertilo – Amizade

Pe. Bertilo João Morsch – Pároco da Paróquia da Ressurreição e Reitor do Seminário São João Maria Vianey.

            “Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. Nenhum dos discípulos ousou perguntar-lhe quem és tu? Pois bem sabiam que era o Senhor”. (Jo 21,12) O encontro inesperado, as situações inusitadas, o que não foi combinado, mas tinha que acontecer.

            Coisa boa é reencontrar alguém que amamos! Outro dia, em uma dessas viagens de férias, tive a oportunidade de hospedar-me na casa de um amigo o qual não o via desde a última vez que estive em minha cidade natal e durante o intervalo de um ano que compreendeu a minha partida e retorno poucas foram as vezes que nos comunicamos.

            Interessante é que, no reencontro, o abraço acolhedor, o sorriso generoso e a alegria de estarmos juntos outra vez, anunciava que tudo permanecia igual, embora estivéssemos diferentes pelas experiências e acontecimentos que havíamos vivido no ano que passara.

            Era como se a mesa continuasse posta com toalha nova, café fresco e pão quente à espera da continuidade da conversa deixada inconclusa no último encontro. A amizade, a confiança, o carinho e a reciprocidade foram capazes de transformar o espaço de um ano em um intervalo de tempo semelhante ao de alguém que levanta da mesa para atender a porta e no retorno diz: “Podemos continuar de onde paramos?”.

            Ao redor da mesa a vida se deu com a naturalidade e as exigências que lhes são próprias. Sem cobranças ou questionamentos, só havia espaço para a gratidão de poder dizer “que bom que você está aqui”. A mesa posta, metáfora de encontro, tornou-se sacramento de comunhão e partilha. Nas trocas de experiências, nas dores partilhadas e nas desilusões contadas durante aqueles dias que estive em sua presença fui tocado pelo olhar acolhedor daquele amigo que, mesmo distante fisicamente, nunca esteve ausente.

            Daquele encontro duradouro saí renovado, mais consciente do que sou, das minhas potencialidades e de como encontros sinceros podem nos tocar e transformar de tal maneira que a presença do outro pode permanecer conosco mesmo com sua ausência física. O olhar afetuoso do meu amigo reverberou de maneira tão íntima em mim que foi capaz de provocar mudanças em minha forma de ver o mundo.

            Intuo que experiência semelhante tenha acontecido com os discípulos de Cristo após a sua morte e ressurreição. O que fora vivido ao lado do Mestre os marcou de tal maneira que, mesmo na sua ausência, a lembrança dos encontros celebrados e das experiências vividas faziam o Mestre presente, mesmo na ausência.

            Encontros assim ocorrem de forma pontual, mas, se estamos abertos e atentos a eles, somos transformados, assim como aconteceu no encontro com o meu amigo, assim como ocorreu entre Cristo e seus discípulos. Estejamos atentos: cada encontro, cada reencontro pode ser uma oportunidade de nos reencontrarmos com nosso ser mais íntimo, descobrindo quem realmente somos, de nos aproximarmos daquele que empaticamente vem ao nosso encontro e, sobretudo, de nos deixarmos encontrar com Deus, que nos procura incansavelmente.

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