Valdemar Roveda, 83 anos: o gringo de Maraú que adotou Santa Maria e fundou A Cidade
Há quem chegue a uma cidade. E há quem uma cidade adote. Valdemar Roveda pertence ao segundo grupo — e faz questão de dizer que a escolha, no fundo, não foi dele: “A escolha não foi minha; passei aqui em 1961, rumo a Livramento, era um festival de trens. Quando eu poderia imaginar um dia estar aqui residindo?”
Neste 20 de julho, o fundador do Jornal A Cidade completa 83 anos. É a data que ele próprio, há mais de duas décadas, transformou em Dia do Amigo — porque poucas coisas resumem tão bem a vida de Roveda quanto a palavra amizade.
De Posse Bella Vista à farda
Ele nasceu em 20 de julho de 1943, em Posse Bella Vista, interior de Maraú, filho de Amélio Giacomo e Alba Micheletto Roveda, o meio de sete irmãos numa vila de imigrantes onde “trabalhávamos na agricultura familiar, sem equipamentos, tudo era braçal”. O primeiro trator Ford só chegou àquela localidade em 1959. Até os 22 anos, foi lavrador de arroz, soja e milho.
A saída veio pela farda. Em 4 de agosto de 1964, sem qualificação e sem estudo, ingressou na Brigada Militar, em Passo Fundo. “Difícil, naquele período, um gringo na corporação. Mas eu fui, enfrentei a tudo e a todos, até os amigos discordaram da minha decisão.” Soldado, cabo, foi estudando à noite e nos fins de semana. Em Nova Prata, no primeiro dia de aula, ouviu de um professor que ele “não gostava de brigadiano” — e respondeu, de pé: “Julgue a pessoa e não a organização.” A sala inteira aplaudiu.
Registro dos anos 1970: Roveda como sargento da Brigada Militar, tempos da EsFAS.
O ano em que tudo aconteceu: 1970 e depois
Em janeiro de 1970, chegou a Santa Maria para o curso de Sargento — o primeiro do interior do Estado. Formou-se em 16 de dezembro daquele ano e dedicou seis anos à EsFAS, a Escola de Formação criada em 13 de maio de 1970, onde depois lecionaria. Sem largar a farda, emendou os estudos: concluiu Estudos Sociais na FIC (hoje UNIFRA) em 1974 e ingressou, em 1972, no último curso de quatro anos de Direito da UFSM.
Se um ano condensa a vida de Roveda, é 1976. No mesmo ano, deixou a Brigada Militar depois de mais de onze anos de serviço, perdeu o pai, viu nascer o primeiro filho, Marcelo, e foi aprovado, em agosto, na OAB e no exame de corretor de imóveis. “Um período turbulento, onde encontrei soluções.” Colou grau em Direito em 16 de dezembro de 1976 — a terceira das três formaturas que ele guarda, todas num mesmo dia do calendário.
A Varanda, o Bangalô e as mudanças
Ainda em 1976, abriu na Rua Floriano Peixoto, 938, a imobiliária “A Varanda Negócios Imobiliários”, onde ficaria 27 anos. “Cada venda, cada atendimento… senti-me realizado por fazer o que gostava.” Foram, por sua conta, mais de 500 famílias atendidas, muitas com terrenos financiados sem reajuste — “ainda hoje agradecem a chance recebida”. Vieram o Bangalô Cabanas Motel, aberto ao público em 24 de dezembro de 1979, e, em 12 de julho de 1980, com a chegada dos irmãos de Maraú num caminhão Chevrolet 1964 que “ainda funciona”, a Mudanças Roveda.
O jornal
O gosto pela mídia vinha de longe: já em 1974 Roveda assinava cadernos regionais para A Razão e a Platéia de Livramento, e em 1977 fazia um pequeno jornal próprio para anunciar os imóveis da Varanda. A ideia do semanal amadureceu numa volta de Passo Fundo, em novembro de 1997. “Busquei o nome ‘Jornal A Cidade’ e no dia 17 de março de 1998 circulava a primeira edição.”
Baile da imprensa: Roveda entre os que faziam — e celebravam — a comunicação de Santa Maria.
Foram mais de vinte anos de circulação impressa, uma edição por semana, sempre com a mesma divisa: “Nada de compra, tudo é conquistado pelo que você faz.” Já em 2001, no dia 21 de abril, o jornal ganhou um irmão no ar, com a estreia do espaço na Rádio Imembuí — e foi essa segunda voz que garantiu a travessia.
Por volta de 2021, a tinta no papel se despediu: o formato impresso tornou-se inviável, e Roveda tomou a decisão com a franqueza de sempre. “Com tristeza, mesmo diante de tantos pedidos para continuar, tornou-se inviável naquele formato. Mas o jornal continua.” Continuou — e se reinventou. A redação migrou para o rádio e para o digital: editoriais gravados em áudio e vídeo, lidos ao vivo aos sábados no Programa A Cidade, transmissões externas feitas de dentro das empresas da cidade — do comercial Dois Irmãos à RedeMac de Camobi, das lojas às construtoras. “As redes, as parcerias, movem o turismo e o poder de negociação.”
Duas décadas e meia — e sem sinal de ponto final
Quem imagina que a história de Roveda é coisa do século passado não o conhece. Em 2012, os catorze vereadores de Santa Maria lhe concederam, por unanimidade, o título de Cidadão Santamariense — reconhecimento que ele recebe até hoje com franca humildade: “Tem gente que fez muito mais do que a família Roveda por Santa Maria.”
Mas o essencial veio depois, e continua vindo. Em março de 2023, o Jornal A Cidade cruzou a marca dos 25 anos. E, semana após semana, o editorial de Roveda segue saindo — no rádio, no digital, na voz de quem não aprendeu a parar. Em julho de 2026, às vésperas de completar 83 anos, ele ainda assina sua coluna com o mesmo fôlego de sempre, batendo nas mesmas teclas que defende há décadas: o turismo como “indústria sem chaminés”, o valor do empreendedor local, o cooperativismo que cresce na região, a revitalização do centro, a Gare que espera investidor. “Vamos inovar. O centro de Santa Maria pode unir comércio, gastronomia, cultura e diversas atividades — tenho certeza de que a população prestigiará.”
E há um traço que os anos não gastaram: a conversa. Roveda ainda encerra seus textos com o telefone de contato e o convite de sempre — “Quer conversar comigo, sua opinião sobre o que eu escrevi? Ligue.” — porque, para ele, jornal sempre foi isso: gente falando com gente. Devoto de Nossa Senhora Medianeira, atravessou pandemia e enchentes escrevendo sobre prevenção, fé e esperança, sem nunca faltar ao leitor.
O que fica
Aos 83 anos, o menino tímido de Posse Bella Vista pode olhar para trás e ver uma cidade inteira — e, ainda assim, prefere olhar para a frente. Não por acaso, o editorial que ele prometeu para a semana do próprio aniversário é sobre a data que ele mesmo ajudou a plantar no calendário: “No próximo editorial, vamos celebrar a amizade: o Dia do Amigo.” É 20 de julho. É o dia em que Valdemar Roveda nasceu, e o dia que ele escolheu para comemorar aquilo que talvez seja sua obra maior — as amizades que construiu.
“Não fui aventureiro, mas quis o destino que aqui chegasse de passagem para permanecer um ano — e acabasse permanecendo.”
Obrigado, Santa Maria. E parabéns, seu Roveda.