Importa decidir-se.
Jesus acabara de iniciar seu ministério pregando sobre a chegada do Reino de Deus e sobre a conversão. Era hora de reunir o grupo daqueles que levariam sua mensagem até os confins da terra. Caminhando junto ao mar da Galileia, Jesus encontrou Simão e seu irmão André, ambos pescadores em pleno serviço. Tão logo os encontrou, chamou-os para segui-lo e prometeu que os tornaria pescadores de homens. Mas, que motivo teriam eles para o segui-lo? Valeria a pena largar tudo para acompanhar um jovem pregador ainda pouco conhecido? Simão e André, como Tiago e João pouco depois, foram confrontados com um chamado que implicava uma transformação total de suas vidas. O chamado daquele jovem pregador estava ligado a uma grande mudança, não somente em relação a eles, mas a todos os homens. De fato, sabiam o que era pescar e, embora não tivessem a exata compreensão das palavras de Jesus, certamente podiam entender que pescar homens estava ligado a retirar os homens da situação em que viviam tal como os peixes eram retirados do mar. Ademais, é muito possível que, antes de serem chamados diretamente, tenham ouvido a mensagem de Jesus, pois onde quer que passasse na Galileia, Jesus anunciava a chegada do Reino de Deus e conclamava todos a uma mudança radical de vida. Assim, de algum modo eles sabiam sobre a profundidade implicada naquele chamado do pregador Jesus. Mas, como saber se a promessa do pregador iria realmente se concretizar? Que segurança teriam a esse respeito? Para essa questão, não dispunham de nenhuma garantia. O que competia a eles naquele momento era somente uma atitude: decidir-se. Sem embargo, todo homem é um projeto de Deus, tanto por ser lançado no mundo mediante a força do próprio Deus quanto por ser Deus mesmo sua plena realização enquanto homem. Contudo, a realização desse projeto não se dá de forma automática. Deus conta com a colaboração livre do homem, a qual, por sua vez, depende radicalmente da decisão livre do homem em aderir ou não ao projeto de Deus a seu respeito. Com seu chamado, Jesus estava colocando Simão, André, Tiago e João precisamente na urgência de decidir livremente se queriam aderir ou não ao projeto de Deus. A situação deles coincide, nesse sentido, com a situação de todos os homens. Cada um é chamado continuamente por Deus em Jesus. A proposta é radical. Humanamente, não há garantias. A certeza proporcionada pela visão somente virá com a realização do Reino. Por um lado, o sim significa a participação no Reino de Deus e a transformação dos homens. Por outro lado, o não significa permanecer fora do Reino. Diante dessa situação, o homem entende de que toda a sua vida depende de um corte, de uma cisão radical. A questão é saber o que deve ser cortado: sua ligação com sua própria vida e interesses para assumir Deus (o qual, para ele, se mostra apenas como uma possibilidade), ou sua ligação com Deus e a possibilidade de seu Reino para permanecer com a segurança de suas redes e sua pesca. Não há meio termo. Aqui, o homem é colocado diante de sua destinação eterna. É preciso decidir. O sim o conduzirá a realização de si mesmo em Deus, o não frustrará essa realização. O chamado de Deus é um magnífico dom, mas implica uma grande responsabilidade. Chamando, Deus concede a graça para que o homem possa responder livremente. A resposta, porém, é sua. Que nós, com a graça de Deus, saibamos decidir pelo Reino. Dessa decisão depende nossa participação no mesmo Reino, pois decidir-se significa, concretamente, seguir os passos do Nazareno. E quem O seguir logo descobrirá que Nele mesmo se realiza o Reino por Ele anunciado. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey.